Durante quase um século, falou-se da paracoccidioidomicose como uma doença causada por um único fungo. Hoje sabemos que o agente é um complexo de espécies — e essa distinção não é apenas taxonômica: ela altera a interpretação dos exames de sorologia.
De uma espécie para um complexo
Adolpho Lutz descreveu a doença em 1908, em São Paulo. O agente viria a ser nomeado Paracoccidioides brasiliensis por Floriano de Almeida, em 1930. Por décadas, considerou-se tratar-se de uma espécie única.
A partir dos anos 2000, estudos de filogenia molecular revelaram linhagens crípticas — designadas S1, PS2, PS3 e PS4 — morfologicamente indistinguíveis entre si. Em paralelo, isolados do Centro-Oeste (o grupo então chamado “Pb01-like”) mostraram-se suficientemente divergentes para constituir uma espécie à parte, formalizada como Paracoccidioides lutzii.
Em 2017, Turissini e colaboradores propuseram nomes formais para as demais linhagens: P. brasiliensis (S1), P. americana (PS2), P. restrepiensis (PS3) e P. venezuelensis (PS4).
Onde cada espécie predomina
P. brasiliensis (sensu stricto) tem ampla distribuição, com forte presença no Sudeste e no Sul. P. lutzii concentra-se no Centro-Oeste e na Amazônia — Mato Grosso, Goiás e Rondônia, entre outros. Mato Grosso do Sul situa-se em uma zona de transição, o que torna a identificação da espécie particularmente relevante para os serviços do estado.
Por que isso muda o diagnóstico sorológico
O teste sorológico mais difundido no Brasil é a imunodifusão dupla em gel de ágar. Ele emprega, na maioria dos laboratórios, antígeno preparado a partir de P. brasiliensis, cujo componente imunodominante é a glicoproteína de 43 kDa (gp43).
Ocorre que a gp43 de P. lutzii é antigenicamente divergente. Soros de pacientes infectados por P. lutzii podem, portanto, reagir fracamente — ou não reagir — frente ao antígeno convencional. O resultado é uma sorologia falso-negativa ou com títulos baixos, incompatíveis com a gravidade do quadro.
O emprego de exoantígeno de P. lutzii, em paralelo ao antígeno clássico, aumenta a sensibilidade nas regiões onde essa espécie circula.
O que levar para a prática
- Sorologia negativa não exclui PCM, sobretudo em área de circulação de P. lutzii.
- O diagnóstico de certeza continua sendo a identificação do fungo: exame micológico direto, com as leveduras de brotamento múltiplo em “roda de leme”; histopatologia; e cultura.
- A sorologia é insubstituível no acompanhamento — a queda dos títulos é um dos critérios de cura —, desde que o antígeno seja adequado à espécie.
Para uma região de transição como Mato Grosso do Sul, conhecer qual espécie circula localmente é condição para não subdiagnosticar a doença.
Conteúdo informativo, revisado com base na literatura científica. Não substitui a avaliação de um profissional de saúde. Em caso de sintomas, procure uma unidade de saúde.